Feira de Parques Naturais e Ambiente
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Assinada em Olhão, 25 Julho 2008

Francisco Leal
Presidente da Câmara Municipal de Olhão


A singularidade dos territórios do Sul de Portugal, em especial o Baixo Alentejo e o Algarve, moldou ao longo dos tempos as suas gentes e culturas.
A aridez do Barrocal Algarvio e das planícies Alentejanas prolonga-se em ofícios, cantares, gastronomia e, em particular, na rudeza primitiva de uma cultura material única.
Estas paisagens, aparentemente monótonas por não serem marcadas por acidentes geológicos de excepção, distinguem-se por um carácter que não deixa indiferente quem as percorre e influencia para sempre quem nelas vive.


Antecedentes Internacionais
As Nações Unidas declararam o ano de 2002 como o Ano Internacional do Ecoturismo tendo promovido no Canadá, em Maio desse ano, a realização da Cimeira Mundial de Ecoturismo que viria a ter como corolário a Declaração do Quebec sobre Ecoturismo.

A Conferência Mundial de Ecoturismo de Maio de 2007, realizada em Oslo, na Noruega, pretendeu medir os resultados obtidos desde 2002 e identificar os novos desafios na área do ecoturismo, com o objectivo de fixar novos compromissos e estabelecer recomendações sobre as políticas e iniciativas que contribuem para reforçar o papel que essa actividade pode desempenhar na conservação da natureza e no desenvolvimento sustentável.

Da Conferência Mundial de 2007 resultou a Declaração de Oslo sobre Ecoturismo, tendo sido reforçado o compromisso da comunidade global em promover uma melhoria das práticas sustentáveis em torno do ecoturismo.

Desde 2002, vários países, organizações não governamentais, autoridades ligadas ao poder local e regional e empresas têm manifestado a sua preocupação sobre o estado geral dos Ecossistemas e da Biodiversidade, expressa em relatórios da CBD (Convenção Sobre Biodiversidade), UNEP (Programa Ambiental das Nações Unidas), IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) ou Earthwatch (ONG).

A importância dos valores naturais, paisagísticos e culturais inerentes ao território das Áreas Protegidas e a crescente procura desses locais para a prática de actividades de recreio e lazer em contacto directo com a natureza e com as culturas locais, fazem com que estes espaços se constituam como novos destinos turísticos.

Antecedentes Nacionais
A criação em 1998 do Programa Nacional de Turismo de Natureza, exclusivo da Rede Nacional de Áreas Protegidas e inspirado nos princípios da Carta Europeia de Turismo Sustentável para as Áreas Protegidas, faz parte de um conjunto de orientações políticas nacionais direccionadas para o desenvolvimento sustentável destas áreas, que no caso particular do turismo, visa permitir a recuperação e conservação do património natural e cultural apoiado em quatro vectores principais: conservação da natureza, desenvolvimento local, qualificação da oferta turística e diversificação da actividade turística.

Em Portugal, O ICNB (Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade) promoveu, em Novembro de 2007, a Conferência Business & Biodiversity realizada no âmbito da Presidência Portuguesa da União Europeia. No documento intitulado Mensagem de Lisboa, é reconhecido o papel da biodiversidade como um elemento crucial de qualquer estratégia de Desenvolvimento Sustentável no médio e longo prazo e assinaladas as principais pressões e ameaças sobre os valores naturais, tendo sido feitas recomendações para a implementação urgente de medidas que envolvam os governos, a sociedade e as empresas na conservação da natureza, como forma de atingir os objectivos traçados pela União Europeia para travar a perda da biodiversidade a nível local, nacional, regional e global.

Turismo de Natureza: Estado Actual e Desafios
Desde 2002:

Muitas áreas naturais a nível mundial encontram-se hoje ameaçadas pela perda progressiva de biodiversidade, sendo que os recursos para a sua conservação permanecem inadequados e insuficientes.

O Turismo de Natureza é praticado a nível mundial por cerca de 5% do contingente total de viajantes e apresenta perspectivas de crescimento acima da média do mercado turístico convencional (cerca de 20% por ano), principalmente em países com significativas reservas naturais.

As alterações climáticas são hoje uma séria ameaça que afecta directamente os recursos de que o Turismo de Natureza depende - reservas naturais e comunidades locais em todo o mundo. Este quadro tem contribuído para chamar a atenção para as implicações do modelo actual e futuro das operações e dos serviços turísticos a nível mundial no problema global das alterações climáticas.

O papel do turismo como suporte ao desenvolvimento sustentável, em particular no combate à pobreza, tem sido reconhecido como um factor crítico de responsabilização do sector.

O Turismo de Natureza tem articulado os princípios fundamentais da sustentabilidade na indústria de turismo e viagens desempenhando um papel-chave no futuro desta indústria vista como um todo.

O crescimento constante do turismo na Europa, em especial do turismo local, está relacionado com a procura crescente pelo "geoturismo" (sentido de "lugar") e com o aumento da importância dos activos intangíveis (marca, imagem e informação).

A nível global, o chamado mandato governamental para o desenvolvimento turístico está a ser gradualmente transferido para o poder local, pelo que muitos casos de sucesso resultam hoje mais de parcerias entre o sector privado e os executivos locais que actuam como agregadores, mediadores e coordenadores, incentivando a participação comunitária.

O ICNB e O Instituto do Turismo de Portugal, apoiam a iniciativa do município de Olhão de elaboração da DECLARAÇÃO DO ALGARVE SOBRE TURISMO DE NATUREZA enquanto instrumento de trabalho fundamental para enfrentar os desafios e as oportunidades do Turismo de Natureza em Portugal e, em particular, no Algarve, promover a conservação da natureza e o desenvolvimento sustentável local.

Num contexto internacional de múltiplos desafios e oportunidades, a Organização Mundial de Turismo (OMT), a UNEP (Programa Ambiental das Nações Unidas), o IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) e outras agências internacionais têm vindo a prosseguir políticas que visam tornar a indústria do turismo mais sustentável. Os promotores desta DECLARAÇÃO subscrevem esta abordagem convictos de que o Turismo de Natureza pode e deve continuar a desempenhar um papel de liderança e de inovação a nível global na prossecução destes objectivos, constituindo-se como paradigma para toda a indústria do turismo.

Para alcançar estes objectivos, o Turismo de Natureza deve continuar a promover formas de turismo que estimulem a viagem responsável nas áreas protegidas, a protecção do ambiente e da biodiversidade e a promoção de bem-estar das comunidades locais.

Não obstante os esforços desenvolvidos nos últimos anos, o Turismo de Natureza continua subaproveitado, e são ainda muitos os desafios que enfrenta no País e, em particular, no Algarve:

O interesse na visitação das áreas protegidas, o contacto com os modos de vida locais e a observação da vida selvagem tem crescido continuadamente, gerando novas oportunidades mas também novos desafios e a necessidade cada vez maior de implementação de boas práticas de gestão.

O termo Turismo de Natureza encontra actualmente um maior reconhecimento público sendo por vezes abusivamente utilizado, o que implica um maior esforço na tarefa de comunicar o conceito e educar a sociedade e os operadores da indústria do turismo para o seu verdadeiro significado.

Os governos têm vindo a adoptar estratégias nacionais de Turismo de Natureza, mas nem todas têm sido correctamente integradas nas políticas de ambiente e de turismo ou sequer suportadas por iniciativas concretas a nível local.

Um número crescente de projectos tem conduzido à criação de empresas ligadas ao Turismo de Natureza, mas um número ainda considerável debate-se com estruturas económicas frágeis e com dificuldade em aceder ao mercado.

Uma liderança forte suportada por boas estratégias é um requisito crucial para a diminuição da pegada ecológica e das emissões de CO2 geradas pelo Turismo de Natureza. Uma estratégia de redução das emissões deverá ser articulada e integrada nas políticas operacionais de Turismo de Natureza.

Muitos países passaram a ter associações nacionais e regionais de Turismo de Natureza. O seu papel é o de promover o Turismo de Natureza e assegurar uma melhor comunicação entre governos, organizações não governamentais, empresas e cidadãos, pelo que o seu trabalho deverá ser reconhecido e apoiado.

O Turismo de Natureza no Algarve encontra-se ainda marcadamente subaproveitado, em especial nas áreas protegidas e nas zonas interiores, pelo que uma abordagem inovadora do Turismo de Natureza deverá incluir a mobilização activa e socialmente justa das comunidades locais.

Recomendações dos signatários
Reconhecendo a importância dos desafios de natureza global e específicos do sector, os signatários da DECLARAÇÃO DE OLHÃO SOBRE TURISMO DE NATUREZA, subscrevem as preocupações expressas por agências internacionais, governos e cidadãos, e expressam as seguintes recomendações:

Reconhecer o importante papel que o Turismo de Natureza pode desempenhar no desenvolvimento sustentável do Algarve

O Turismo de Natureza, muitas vezes praticado em regiões rurais e interiores onde as oportunidades para as comunidades são escassas, pode fornecer uma fonte de rendimento adicional através de mecanismos de gestão que valorizem e suportem a conservação da natureza no Algarve.

As comunidades locais do Algarve deverão, não apenas ser envolvidas no planeamento e beneficiar dos rendimentos provenientes dos produtos e serviços do Turismo de Natureza, mas também ser reconhecidas e tomadas como partes interessadas geradoras de riqueza no processo contínuo de criação de empresas sustentáveis.

As acções a implementar devem promover:
O desenvolvimento de estratégias de envolvimento das comunidades locais no planeamento, empreendedorismo e criação de novas empresas, com o objectivo de garantir uma gestão sustentável da actividade turística através da criação de parcerias inter-sectoriais.

Assegurar maiores benefícios directos e indirectos para as populações locais mais carenciadas, através de políticas de formação e de emprego, do correcto funcionamento da cadeia de valor local, do apoio à criação de empresas e do apoio aos serviços e infra-estruturas locais.

Estimular o desenvolvimento da agricultura biológica, do agro-turismo e da pecuária, através da criação de redes comerciais entre os operadores de Turismo de Natureza e explorações inovadoras na área da agricultura biológica e agro-florestal.

Encorajar o desenvolvimento de produtos inovadores e apoiar o comércio justo através da criação e do fortalecimento de redes que integrem o artesanato, as artes tradicionais e a cultura local.

Promover parcerias sustentáveis entre o sector público e o sector privado, envolver agências de desenvolvimento local e regional e organizações não governamentais na defesa dos valores naturais e da herança cultural algarvia, preparando adequadamente as comunidades locais para o impacto da actividade turística;

Promover o acesso universal dos destinos turísticos eleitos, a todos os cidadãos portugueses e estrangeiros, portadores de deficiências e de dificuldades motoras, através do incentivo e o apoio à implementação de projectos enquadrados no Turismo Acessível;

Maximizar o potencial das boas práticas de gestão do Turismo de Natureza algarvio na conservação dos valores naturais e das herança cultural tangível e intangível

O Turismo de Natureza depende da preservação da paisagem e dos valores naturais, da qualidade e da abundância de vida selvagem e da diversidade cultural. O desenvolvimento do Turismo de Natureza e os seus benefícios económicos no Algarve deverá por isso ser encarado como uma ferramenta útil e decisiva no respeito pela preservação daqueles valores. A definição de Turismo de Natureza prevê a obtenção de resultados positivos ao nível da conservação e todas as actividades deverão ser geridas de acordo com boas práticas de modo a maximizar os seus benefícios e minimizar os seus impactes negativos no ambiente e no modo de vida das comunidades locais.

As acções a implementar devem promover:
O aumento do "know-how", dos recursos e das competências das entidades responsáveis pelas gestão de áreas protegidas, no desenvolvimento e na gestão de projectos de Turismo de Natureza, com o objectivo de melhor encaminhar os seus benefícios para as comunidades locais, fomentar a visitação das áreas protegidas e o reconhecimento da importância da conservação das áreas protegidas do Algarve.

O apoio à implementação de programas de investigação e de monitorização das zonas costeiras do Algarve, reconhecendo o carácter sensível dos seus habitats e a frequente escassez de recursos aliada a uma maior pressão turística exercida sobre as comunidades locais.

Novas abordagens e mecanismos inovadores de utilização do Turismo de Natureza para financiamento de projectos de conservação, investigação e monitorização da vida selvagem, e de desenvolvimento sustentável dos destinos turísticos algarvios.

O envolvimento das comunidades locais recorrendo sempre que possível à utilização de técnicas e materiais locais na construção de infra-estruturas de Turismo de Natureza, em harmonia com o meio-envolvente e com o mínimo de impactes sociais e ambientais negativos.

O aumento dos esforços de políticas que conduzam à implementação no Algarve dos princípios da CBD (Convenção Sobre Biodiversidade) e das recomendações nacionais e internacionais sobre biodiversidade e turismo sustentável, promovendo a interacção correcta entre visitantes, comunidades locais e vida selvagem, assegurando simultaneamente a captação de recursos destinados à realização de acções de conservação no Algarve.

Criar circunstâncias favoráveis à implementação dos princípios fundamentais do Turismo de Natureza nas áreas da Rede Natura 2000 e em todo o espaço rural algarvio;

Incentivar e estimular a adesão das áreas protegidas à Carta Europeia de Turismo Sustentável;

Apoiar a viabilização económica e boa gestão das empresas algarvias de Turismo de Natureza através de planos de marketing, educação e formação

O negócio do Turismo de Natureza pode ser tão frágil e sensível como o ambiente em que está inserido. Muitos produtos de Turismo de Natureza são fornecidos por micro ou pequenas empresas, e muitos empresários não possuem ainda os conhecimentos, os recursos humanos qualificados, a capacidade económica e a experiência necessárias para operar correctamente no sector. Os empresários do sector deverão por isso ser apoiados e encorajados a trabalhar em rede para fortalecerem o seu negócio e as suas próprias competências.

As acções a implementar devem promover:
Um maior acesso de indivíduos e empresas a programas e acções de formação profissional na área do Turismo de Natureza.

A disponibilização de informação detalhada e actualizada sobre os mercados de Turismo de Natureza e facilitar o seu acesso através de canais eficazes que incluam a utilização de sites de Internet, fóruns de discussão, grupos de discussão, mailing lists, rádio, imprensa e publicações especializadas no sector do turismo.

O apoio, com base em índices de visitação e nas expectativas dos viajantes, a implementação de programas sonoros multi-lingues, a tradução de conteúdos ambientais e culturais de grande qualidade ou outros suportes inovadores, e fomentar a criação de centros e de cursos de formação e de interpretação ambiental e cultural.

A cooperaração com os media internacionais, nacionais e regionais na divulgação e sensibilização do público para o papel do Turismo de Natureza na conservação da natureza, evitando práticas de green-washing e aumentando a notoriedade do sector.

O apoio às associações locais de Turismo de Natureza e a sua integração na rede nacional e global de Turismo de Natureza.

Evidenciar questões críticas que fortaleçam a sustentabilidade do Turismo de Natureza no Algarve

O Turismo de Natureza reclama um papel fundamental no impacte positivo que gera na sociedade e no ambiente. Daí a importância da correcta implementação dos seus princípios e a sua divulgação e sensibilização. Para potenciar os benefícios gerados pelo Turismo de Natureza no Algarve, várias questões merecem um tratamento específico que tenha em consideração as tendências do mercado turístico e a conjuntura internacional, incluindo os novos desafios e as novas oportunidades existentes.

As acções a implementar devem promover:
A criação e a adesão a mecanismos de certificação da oferta e a linhas de financiamento que ajudem a melhorar a gestão ambiental, viabilizem as operações de impacte mínimo, protejam locais com valores naturais e culturais tangíveis e intangíveis, e apoiem estratégias de gestão agrícola no Algarve.

A simplificação dos processos burocráticos e de apoio a novos negócios, social e ambientalmente responsáveis, cuja gestão esteja de acordo com os princípios do Turismo de Natureza, beneficiem as comunidades locais, aumentem os esforços de conservação da natureza e minimizem os impactes ambientais.

O combate ao impacte do turismo algarvio nas alterações climáticas encorajando as boas práticas dos viajantes (por exemplo através de estadias mais prolongadas por viagem), promovendo a utilização de energias renováveis e a eficiência energética das infra-estruturas e dos equipamentos existentes e fomentando o recurso a formas sustentáveis de mobilidade dos viajantes.

A promoção e a adesão dos operadores turísticos tradicionais do Algarve aos princípios sustentáveis do Turismo de Natureza, criando condições favoráveis para a implementação de sinergias e de parcerias na oferta existente.

O encorajamento ao sector do Turismo de Natureza para operar com integridade, protegendo e promovendo a herança cultural tangível e intangível, a diversidade cultural e social das comunidades locais algarvias.

Através da promoção e divulgação dos princípios e práticas do Turismo de Natureza e do turismo sustentável, os signatários da DECLARAÇÃO DE OLHÃO SOBRE TURISMO DE NATUREZA comprometem-se a apoiar a sensibilização dos turistas/visitantes, dos operadores turísticos e de todos ao agentes do sector turístico em geral. Através deste compromisso, pretende-se também promover a criação de novas empresas e associações do sector e apoiar as existentes, estimulando a sua integração em redes de negócio e de conhecimento que ajudem a canalizar os recursos para onde são mais necessários.

Como parte integrante na promoção e valorização do Turismo de Natureza no Algarve e a nível nacional, os signatários emitirão um comunicado de imprensa para tornar público o seu compromisso de apoio aos princípios fundamentais do Turismo de Natureza e à sua incorporação nas organizações e nas estratégias nacionais de turismo, e apoiarão a publicação de um pequeno manual sobre Turismo de Natureza no Algarve que integre as recomendações da DECLARAÇÃO DE OLHÃO SOBRE TURISMO DE NATUREZA.


Camara Municipal de Olhão
Camara Municipal de Olhão